Não temos medo, temos esperança!
12 Abril, 2020

Uma realidade – Um desafio

O presente do momento é fugaz. Quase não existe. - Acabou, já escrevi, e tornou-se passado.
Este presente que estamos agora a viver, dia-a-dia, hora a hora,
minuto a minuto, nunca mais passa. Não nos deixa.
Ele é cruel, demasiado cruel.

Que faço eu ? Sou uma Idosa de 81 anos. Tenho pouca sorte,
porque ultrapassei a divisória dos 80 que é a mais castigada.
Lembro-me, então, da ternura dos 40, que já lá vai.
Que saudades !
Idosos, Adultos, Crianças ... Só agora sinto a rasgar-me a carne
e a mente, estas chapas cronológicas das nossas idades mais
avançadas. E porquê ? Porque nunca tivemos um inimigo tão
forte, tão covardemente insidioso que nos ataca de viés.

Deram-lhe o nome, baptizaram-no numa cerimónia em que todos os presentes se uniram fortemente e fizeram estratégias de defesa e ataque.
Todos esses, que lutam por todos nós, estão na nossa incomensurável gratidão.
O meu quarto é o meu mundo. O inimigo não entrou lá, nem entrará. Tem bons ferrolhos, todos trancados com sabão,
desinfectantes para as mãos, as diferentes superfícies, as maçanetas das portas, das janelas, da varanda.

É verdade, tenho uma varanda. É lá que mergulho no oxigénio
e sinto, um pouco, o ar que me acaricia, com temor e carinho.
Continuo a pensar que vai haver um futuro muito diferente, com
outras vestes, outras maneiras de viver, outras vontades.
E agora, delirando talvez, acrescento ... quiçá, outras galáxias,
outros planetas habitáveis, e lembro a Terra e Kepler tão semelhantes.

Indo ao passado, recordo a pergunta de Séneca, no Senado Romano - "Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência"..
Pergunto agora o mesmo ao "COVID19" e lembro que tudo um dia acabará.

Por lapso, esqueci-me de dizer o nome do Lar que me acolhe.
É no Norte, a Misericórdia da Trofa. Está muito bem.
Todos os testes negativos - 109 utentes em dois Lares
residenciais e dirigentes, cuidadoras, funcionários e trabalhadores - todos testados com resultados negativos.

Ana Maria Ponce (Drª)
Residente na Misericórdia da Trofa.