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Olhar-te nos olhos…

Close-up of beautiful little girl brown eye. Macro photograph.

Maria (nome fictício), uma jovem na casa dos trinta que teve um emprego, uma casa, pessoas que considerava amigos, uma família… o álcool atirou-a para um fundo que não parecia ter fim.
Foi acompanhado por diferentes técnicos, quando a conhecemos vinha com o rótulo de “caso perdido”. Dissemos NÃO! Como poderíamos desistir de alguém que mal conhecemos, que mal nos conhece? Fomos duros, mas ao mesmo tempo estendemos a mão e agarramos a Maria com a certeza de que ela vale a pena.
Depois de estar sozinha numa rua sem saída decidiu fazer o caminho inverso e começa a estabelecer novas metas para a sua vida. Quem a conhecia diz que Maria está diferente, parece renovada. Esperamos grandes coisas dela e mesmo que, por ventura, se desvie do seu caminho, estaremos cá com a mesma doce dureza.
Rodrigo (nome fictício) de 32 anos completou o 9º ano e não quis estudar mais. Tem um percurso familiar instável, marcado pelos conflitos, falta de afeto e violência doméstica.
O seu percurso profissional na construção civil é curto e pouco ou nada qualificado, o desemprego obrigou ao requerimento da prestação de Rendimento Social de Inserção (RSI) e ao apoio alimentar regular.
Rodrigo sempre se mostrou disponível para trabalhar embora, poucas oportunidades tenham surgido considerando sobretudo os seus conhecimentos, escolaridade e falta de carta de condução ou veículo próprio.
Efetuou um curso profissional que cumpriu sem nenhuma nota a assinalar, conseguiu recentemente uma bolsa através de um Contrato de Emprego e Inserção +. Daqui a cerca de um ano está novamente sem trabalho, sem rendimentos e, não tendo perspetivas de integração profissional, terá de requerer novamente o RSI. Carlos (nome fictício) viveu durante anos com uma vida profissional e familiar estável. Após o fim do seu casamento e com o consumo de álcool, a espiral de dependência dos serviços e a fragilidade económica e emocional tomaram conta do seu dia-a-dia.
Tentou o tratamento de desintoxicação com uma recuperação cheia de altos e baixos, com dias melhores e outros repletos de frustração e desistência. Manteve uma relação próxima de alguns familiares e de elementos da comunidade que lhe veem qualidades de “bom rapaz e trabalhador”.
Certo dia sentei-me com ele durante quase duas horas, fiz dele o protagonista do meu tempo como se nada mais existisse. Falou-me da sua vida, das felicidades, das tristezas que ainda hoje dominam os seus pensamentos e do que o faz sonhar. No fim, de sorriso no rosto, o discurso inicial de “hoje não estou nada bem” (sic) deu lugar a um “obrigado. Esta conversa consigo fez-me mesmo bem. Sinto-me muito melhor” (sic).
A intervenção no caso de Carlos tem-se demonstrado difícil, estagnada, com poucas ou nenhumas mudanças, o caminho não será fácil, mas não o deixaremos de percorrer com ele.
A intervenção social é feita com muitos avanços e recuos, com pequenas e grandes frustrações, pequenas e grandes vitórias, mas sigo em frente com a convicção de que quero dar sempre o melhor, manter o olhar curioso e nunca esquecer de refletir sobre mim e o mundo que me rodeia (embora esta seja uma tarefa nem sempre fácil).
Olhamos o outro com amizade, estamos aqui com disponibilidade para ouvir, abraçar, acolher, mas ao mesmo tempo temos de ser realistas, duros, flexíveis e responsáveis porque, o trabalho social não é linear, não é previsível, não pode ser tratado com ligeireza e com a certeza de que tudo está feito.
Os olhares da comunidade conseguem, por vezes, ser muito ingratos com os profissionais. Há uma infinidade de pequenos nadas que são tudo em determinado momento da vida das pessoas e mesmo que não vejamos uma mudança de 360º, são esses pequenos nadas que marcam pela positiva.
Perdoem-me a presunção de comparar o trabalho social com a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão… Não preciso de fogo-de-artifício, artigos nos jornais, reconhecimento do público para que tenha a convicção de que o meu trabalho é feito com o coração e de que os pequenos nadas, invisíveis ao olhar de todos, são fundamentais na vida de uns poucos que para mim são tudo.

Cátia Rodrigues
Educadora Social, Protocolo RSI